Design Inteligente Não É Ciência

O problema que vejo nos defensores do design inteligente é que confundem ciência com verdade, e além disso cobiçam o status social que a ciência adquiriu nos últimos séculos. De verem furos na teoria da evolução concluem que a idéia de um designer da natureza deve ser levada igualmente a sério e por isso aparecer nos livros didáticos a que as crianças e adolescentes têm acesso. Como contraponto, cientistas escrevem artigos defendendo que o “intelligent design” não pode de forma alguma ser considerado ciência. Indiretamente esses cientistas defendem seus próprios interesses, não querem partilhar o status social que têm com aqueles que vêem como fanáticos religiosos. Estão certos esses cientistas.

O que deveria mudar contudo não toca diretamente na distinção entre ciências e pseudo-ciências, nem, ao que vejo, no pluralismo de visões que um livro didático deveria conter. Antes de tudo deveriam perguntar o que é a ciência. Deveriam ir além da defesa do método científico, que apregoa a experimentação, esclarecendo até que ponto este mesmo método pode ser testado. Porque se o método científico não pode ser testado, ele em si não pode ser considerado científico. E então pode-se dizer com tranqüilidade que o método científico não é científico.

Um método é uma espécie de guia, todo mundo sabe. E todo guia é superior, no sentido de que está um patamar acima daquilo que coordena. Se há um método para a ciência, este método necessariamente precede a sua execução; a ciência, como produto do método que a guia, sucede este mesmo método. Assim, pode-se dizer que o método científico é, ele mesmo, pré-científico, embora seja ao mesmo tempo meta-científico, já que regula a maneira como se opera a ciência.

Estranha o fato de que os cientistas tenham tanta facilidade em dizer o que é e o que não é científico a partir das premissas de seu método, mas não digam que fundamento empírico ou de qualquer outra espécie tem esse método. E como poderiam alçar em público as suas armas de rotulação em massa, na imprensa, não fosse o status social que possuem e a autoridade que advém do progresso tecnológico e material da ciência, dessa gelatina cujos pressuspostos escondem por causa de sua própria autoridade?

Em resumo, quando a chamada direita religiosa, fanática, luta para que o design inteligente seja considerado científico e que como conseqüência figure nos livros escolares, essa luta passa longe da defesa da verdade e do conhecimento correto. Querem poder, querem partilhar de um status que lhes traria benefícios. E o mesmo, infelizmente, pode-se dizer dos cientistas que defendem este método científico a priori, cuja origem parece ser espontânea. A diferença é que estes lutam para conservar o status social da ciência só para si — verbas, mérito e clamor de governos laicos ávidos por pesquisa e tecnologia, que por sua vez podem lhes trazer ainda mais poder.

New York Times Escolhe Hillary Clinton

New York Times declarou apoio, entre os pré-candidatos democratas, à Hillary Clinton; entre os pré-candidatos republicanos, à John McCain. É estranho ver um jornal expondo as entranhas de seu “bias”, de sua parcialidade, embora todo ser humano, digamos, seja parcial — mesmo porque a finitude impõe a parcialidade.

Jornal de NY escolhe “experiente” senadora de NY

Tão ou mais curioso é notar que as razões que eles arrogam no editorial são as mesmas que levam a direita americana (libertária ou conservadora) a rotular o jornal de “liberal”. Como se sabe, essa palavra tem um sentido especial nos Estados Unidos. Se aqui chamar alguém de liberal implica rotulá-lo de defensor do livre-mercado, anti-estatista, a favor de privatizações, contra empresas estatais elefante, o oposto simétrico ocorre lá. E foi só porque Hillary Clinton (de Nova Iorque) teria mais experiência que Barack Obama (de Illinois), que o “Times” se viu obrigado a escolhê-la.

Palatando © Adriano Correia