A Renúncia de Fidel Castro e o Ridículo

Quando falta inspiração para escrever, dever-se-ia calar. Ainda assim, às vezes se quer dizer alguma coisa, mesmo para que haja alguma periodicidade, para que os leitores não vão todos embora de uma só vez. Aos poucos é melhor que de uma vez.

O problema não é a falta do que dizer. Talvez o excesso. Fato, porém, é a falta de vontade de dizer, como se fosse necessária toda uma organização de dados, de textos; um planejamento de tudo aquilo que se vai publicar — sendo preciso saber não só como organizar o texto mas também quando publicar.

Às vezes também é tão idiota a média do que se diz sobre um assunto que a vergonha impede que se abra a boca para bocejar a opinião isolada. Em suma, Fidel Castro não é o socialista que apregoa ou que lhe é apregoado. Pior, não é socialista. A história particular e a maneira como exerceu o poder em Cuba nesses anos todos se inscrevem na história geral do caudilhismo ibero-americano e do personalismo das terras aquém Pireneu.

Não é socialista porque correu a pedir ajuda dos americanos poucos dias depois da pseudo-revolução de 1959. Na verdade, não houve revolução cubana e jamais houve socialismo naquelas terras. É patética toda a historiografia sobre o assunto. É patético que alguns vejam luta anti-imperialista quando a “independência” cubana “foi feita” pelos Estados Unidos na Guerra Hispano-Americana.

Aliás, que conceitos frouxos são esses, “dependência” e “independência”. Primeiro porque de maneira precisa não existe independência, já que todos dependem de todos. Segundo porque, no caso específico de Cuba, não deixaram de ser dependentes — digamos Espanha, Estados Unidos ou União Soviética.

A grande “luta anti-imperialista” de Cuba e de Castro contra o império americano não se daria sem o império soviético. Castro e sua ilha só aderem ao socialismo quando os Estados Unidos por volta de 1960 ameaçam invadir a ilha para depor os “revolucionários”, e então Castro se alia ao Kremlin.

É ridícula, enormemente ridícula, a disputa verbal entre direita e esquerda para ver qual opinião prevalece. Estão enormemente errados, ridiculamente errados. Só sabem aqueles que se despojarem da ideologia e se debruçarem sobre a história real, sobre o patético real do concerto diacrônico das nações.

Eleja as Suas Disputas

Em algum momento percebemos que nem todas as discussões valem a pena, se é que há as que valem. Estranho é que saibamos que devemos eleger nossas batalhas e que ainda assim combatamos. Não é à toa que vemos certo escrivinhador recluso, sem sair mundo afora dando as suas opiniões a quem não quer ouvi-las. Um deles já tinha me dito que a coisa não é assim e que não se deve escrever para alcançar audiência, mas para saldar uma dívida interior.

Não se deve entrar em batalhas contra canalhas, se no meio da luta terá dó do adversário. A guerra não é para piedosos, se a qualquer vacilo menor o adversário pode esmagá-lo. Todo bote deve ser econômico e devastador, sem que haja espaço para qualquer dúvida. No meio tempo, porém, na paz, o melhor tom é ameno, tranqüilo, cheio de “acho” ou “penso”. Até Lincoln sabia que esse era o melhor tom para o convencimento, para que o leitor, a quem se dirigia, ficasse desarmado desde o princípio.

Castro mostrou, hipocritamente ou não, modéstia cristã ao renunciar dizendo que “toda a glória do mundo cabe em um grão de milho”. Há só uma espécie de humilhação que é frutífera, aquela que é confessionária. Há outra também útil, mas desta não depende o futuro de nossas almas. E esta não se diz precisamente humilhação, e sim modéstia ou humildade. É hipócrita, mas todo ser social assim o é. Ninguém diz a verdade o tempo todo e ninguém trata a todos, sem uma única exceção, da mesma maneira.

Sermos animais sociais significa que somos superficiais uns com os outros na maior parte do tempo, senão em todo o tempo. Ninguém diz tudo o que pensa a uma determinada pessoa, e se diz, logo perderá a sua “amizade”. Por mais honestos que os melhores amigos sejam, isso não significa que serão cristalinos. E quantos são os homens perfeitamente sinceros consigo mesmos o tempo todo, sem pausa?

Quantos não são os numerários, os padres, os monges, cuja virgindade se dá não pelo bom motivo de dedicar a vida a Deus, mas porque perceberam que não conseguem chegar perto das mulheres? Não importa o quanto sua timidez se converta paradoxalmente em verborragia apologética, afetando incorreção; ainda assim, são no fundo de seu ser hipócritas.

Há ainda muito que dizer. Tudo não pode ser dito tudo de uma vez já. O que importa, no momento, é saber que o que vale a pena é sanar a dívida que se tem de si para si.

Ainda a Alma Alvinegra da Meritocracia

A contradição pode muitas vezes obscurecer o pensamento. Por isso, resolvi responder ao comentário da leitora Maria sobre o meu texto “Obama e a Alma Alvinegra do Americano” não defendendo o contrário do ponto de vista dela, mas sim tentando mostrar que há uma alternativa ao seu modo de pensar, que não é só dela. Antes, porém, quero precisar a idéia de meritocracia e também mostrar, grosso modo, que o sistema universitário americano funciona também para os mais pobres.

Aristocracia: Nobreza de Sangue, Plutocracia ou Meritocracia?

Então naquele texto eu defendia a chamada meritocracia, mas sem que esclarecesse o que eu queria dizer por esse termo. Na filosofia política grega, surgem uma série de palavras-chave que tentam resumir tipos de governo. Entre esses termos, fala-se muito em aristocracia, sendo esta o “poder dos excelentes”. Porém, para qualquer pessoa que tenha estudado a Revolução Francesa, a aristocracia é uma classe social de pose, assim como talvez seja o estrato brasileiro das socialites, freqüentadoras da Daslu, essa loja em que vestuário caríssimo é vendido. Na França do século XVIII, a aristocracia de mérito, então guerreira, dera lugar à mera aristocracia de sangue, daqueles que herdam privilégios sociais porque a sorte fez com que fossem filhos da nobreza.

Essa aristocracia não era de modo algum meritocrática. Ser filho de alguém e em decorrência herdar grande riqueza e posição social não é mérito. Quando elogiei Barack Obama por ser o tipo americano, que vence na vida pelo próprio esforço, foi que defendi a meritocracia. Tipo americano — não preponderante mas arquetípico — que pode ser visto não só naqueles Estados Unidos da América, mas também na Argentina de Jorge Luis Borges ou no Brasil de Machado de Assis. Arquetípico porque todo americano (continentalmente falando) é um desterrado jogado à própria sorte. Brancos, negros, amarelos, somos a nova terra.

A Universidade Americana e os Despossuídos

Qualquer um que por esforço próprio vá bem na High School tem acesso garantido a uma boa universidade (college), ainda que a anuidade fique entre 10 e 50 mil dólares, pois o sistema de financiamento estudantil — bolsas integrais e parciais inclusas — funciona muito bem naquele país. Sempre por volta da metade dos alunos que vão para a Ivy League (Harvard, Princeton, Yale, etc.) vêm de escolas públicas. Além disso, não há discriminação por cor ou etnia, já que negros, hispânicos, orientais e estrangeiros em geral são cerca de dois quintos do total — como se pode ver, por exemplo, pelo perfil de Princeton disponibilizado pelo College Board.

Visão Alternativa ao Welfare State como Solução Virtuosa

O keynesianismo venceu o debate econômico das décadas de 30 e 40. Quase todo o mundo tomou medidas reguladoras do mercado, tentando segurar as suas rédeas, pois caso contrário viria o caos, o desemprego e a infelicidade geral das nações. Franklin Roosevelt, Adolf Hitler, Benito Mussolini e Josef Stálin eram todos fortes intervencionistas. E tanto Estados Unidos, Alemanha, Itália e União Soviética “venceram a crise de 1929″ com idéias sumamente estatistas.

A visão alternativa a essa interpretação do estado de coisas é que foi o Estado que causou a crise de 29. Foi o Estado que inundou o mercado de “notas sem lastro”. E o mesmo ocorre hoje com a crise dos subprimes, isto é, ao menos na visão dos liberais ditos austríacos, como aqueles que escrevem para o LewRockwell.Com. Um deles, Thomas J. DiLorenzo, escreveu um texto só para explicar como foi o Estado que aos poucos, em decorrência de uma política de ação afirmativa burra, criou a crise:

The thousands of mortgage defaults and foreclosures in the “subprime” housing market (i.e., mortgage holders with poor credit ratings) is the direct result of thirty years of government policy that has forced banks to make bad loans to un-creditworthy borrowers. The policy in question is the 1977 Community Reinvestment Act (CRA), which compels banks to make loans to low-income borrowers and in what the supporters of the Act call “communities of color” that they might not otherwise make based on purely economic criteria.

Em suma, seja na questão do Health Care (sistema de saúde americano), seja na questão do crédito fácil incentivado pelo Estado, há quem ache que é justamente o fato de o Estado intervir no mercado, tentando “humanizá-lo”, que cria grandes crises imobiliárias e financeiras em geral.

Contra os Liberais Estatistas, a Favor de Obama

Quando defendo a candidatura de Obama não o faço, em momento algum, por concordar com uma idéia sequer que surja dos “liberais estatistas” (eles o são!) e politicamente corretos do Partido Democrata. Eu o faço porque, como qualquer pessoa que suba na vida por esforço próprio, Barack Obama, negro e pobre, merece ser presidente. Assim pede a meritocracia americana, independente do azul democrata ou do vermelho republicano. O simbolismo, no caso, é mais importante que o programa partidário.

Da (In)Definição da Candidatura Democrata

As primárias das eleições americanas de 2008 parecem estar decididas. Não é definitivo ainda, mas Obama e McCain puseram um novo peso nas costas de Hillary Clinton: tratam um ao outro já como candidatos definidos. A estratégia é boa para ambos, pois ao passo que McCain serve de isqueiro para as primárias democratas, Obama fixa a imagem de alguém que tem ampla vantagem, quando corre o risco de perder o posto de presidenciável para Clinton. Só que quem ganha mais com essa estratégia ainda é Obama, já que McCain terá sérias dificuldades em vencê-lo se o foco da disputa de novembro for a mudança. No plano dos simulacros, um jovem negro tem ampla vantagem eleitoral frente a um velho branco.

Luís Nassif e o Necrológio da Veja

O que para mim é mais curioso é que não vejam que o iG, com seu Caio Tulio Costa, é apenas o braço armado do governo petista e de José Dirceu. Loucura? Expliquem a consultoria que Dirceu presta ao homem mais rico do mundo, que está finalizando a compra da BrT (lembram de lulinha?) pela Oi!.

Costa já foi amiguinho da Veja (e do grupo Abril) quando comandou o UOL… mas de repente a turminha saiu de lá e se criou um bunker petista tanto na TV Record como no iG, com Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif e Alberto Dines (do Mídia Sem Máscara “diesquerda”).

Nassif mesmo viu-se obrigado a sair da Folha por fazer propaganda institucional, vejam só, da BrT… e agora vem escrever necrológio da Veja, como se não estivesse defendendo interesses corporativos próprios? Ah, vai tocar cavaquinho…
(comentário, agora corrigido, submetido ao blog de Rafael Galvão sobre o necrológio da Veja que Luís Nassif resolveu escrever.)

Más Notas & Resultados da Super Terça

Com o fim da Super Terça, ficou um ar de irresolução na disputa entre Barack Obama e Hillary Clinton. Só o que se pode dizer por ora, é que Clinton começou favorita e de dia para dia foi perdendo o seu favoritismo para a “obamania”. Ela ainda tem mais chances, porém o páreo está confuso: Obama ganhou alguns páreos tidos como dados para Clinton e ela ganhou, por exemplo, Massachusetts, que Obama tinha como garantido após o apoio de Ted Kennedy.

Do lado republicano, John McCain está bastante próximo de conseguir a vaga para concorrer a presidente. Toda a esquerda do partido está com ele — e não se assuste o leitor em saber que os republicanos têm uma ala esquerda, com, por exemplo, os agora apoiadores de McCain, Arnold Schwarzenegger e Rudolph Giuliani. Fato é que com 2008 todo o espectro político voltou-se um pouco à esquerda, lembrando os tempos em que Bill Clinton (1993-2001) foi presidente. Os grandes derrotados são os conservadores em geral e mesmo que John McCain ganhe, faz muito sentido que seu governo tenha mais apoio entre democratas liberais do que em republicanos conservadores.

Não que presidentes importem muito. Há um certo fetichismo em relação a eleições, que viram grandes exibições e trazem muito furor. Mas, lá como cá, presidentes vão mal na escola e não sabem muito bem o que dizem.

Obama e a Alma Alvinegra do Americano

Com a Super Terça chegando, em que veremos vários estados americanos decidindo os presidenciáveis de seus partidos, decidi que era hora de eu abrir meu voto, e influenciar de vez o processo. O único candidato para mim chama-se Barack Obama. Não que Ron Paul, que defende a saída imediata do Iraque, da ONU e da Otan, não fosse uma melhor escolha. Mas o velhinho Paul não tem chance. Então vamos de Obama. Minhas razões não são econômicas, nem ideológicas. Eu simplesmente ficaria feliz em ver um presidente negro nos Estados Unidos. E mesmo que o leitor queira me chamar de “racista” (por querer um presidente negro!) ou de demagogo, continuo com essa escolha.

Também haveria ineditismo com Hillary Clinton. Ela é mulher, afinal. E isso seria interessante também. O problema é que ela é podre de rica (uma “limousine liberal”, segundo um amigo) e tem, sem duplo sentido, Bill Clinton por trás dela. É como a sra. Kirchner na Argentina. Ou como seria Bhutto no Paquistão (então com o espectro do pai, já com o espectro de ambos). Havia homens por trás delas. É nesse sentido que uma candidatura, inviável politicamente, de Condoleezza Rice seria mais interessante: primeiro porque não poderiam acusá-la de ter Bush por trás, segundo porque é mulher e negra. É claro que a cor de pele não é um bom motivo político por si, mas como quebra de paradigma é interessantíssimo. Mesmo que eu sinta sincero desprezo, por exemplo, pelo movimento pró-cotas, é impossível não ser a favor de que brancos e pretos pudessem sentar-se juntos em qualquer lugar de um ônibus. Já houve um cenário de separação racial nos Estados Unidos, que não poderia ser consertado por cotas, mas que diminuiria muito se aquele país tivesse um presidente negro, como Barack Obama.

Além disso, há uma característica pessoal em Obama que para mim é o que simboliza aquele país: ele é um imigrante que venceu por mérito. Sempre que alguém, perto de mim, tenta separar os negros da imagem do americano, que seria branquelo, digo que isto está errado. Não há um americano típico, porque todo americano é um imigrante. Europeu ou africano, o americano é por natureza um retirante. Obama, filho de pai queniano, pode ser considerado um retirante que deu certo na vida, e não exatamente por sorte, mas sim por mérito. No país que representa mais que a democracia, a meritocracia, seria belíssimo que tivessem um presidente que subiu com esforço próprio, sem herança, sem a “propina” patriarcal ou matrimonial.

Antes que me esqueça, não há cultura americana sem os negros. Não há música sem eles. E que fator da cultura americana prepondera maciçamente no mundo senão a sua música, alvinegra?

Palatando © Adriano Correia