A contradição pode muitas vezes obscurecer o pensamento. Por isso, resolvi responder ao comentário da leitora Maria sobre o meu texto “Obama e a Alma Alvinegra do Americano” não defendendo o contrário do ponto de vista dela, mas sim tentando mostrar que há uma alternativa ao seu modo de pensar, que não é só dela. Antes, porém, quero precisar a idéia de meritocracia e também mostrar, grosso modo, que o sistema universitário americano funciona também para os mais pobres.
Aristocracia: Nobreza de Sangue, Plutocracia ou Meritocracia?
Então naquele texto eu defendia a chamada meritocracia, mas sem que esclarecesse o que eu queria dizer por esse termo. Na filosofia política grega, surgem uma série de palavras-chave que tentam resumir tipos de governo. Entre esses termos, fala-se muito em aristocracia, sendo esta o “poder dos excelentes”. Porém, para qualquer pessoa que tenha estudado a Revolução Francesa, a aristocracia é uma classe social de pose, assim como talvez seja o estrato brasileiro das socialites, freqüentadoras da Daslu, essa loja em que vestuário caríssimo é vendido. Na França do século XVIII, a aristocracia de mérito, então guerreira, dera lugar à mera aristocracia de sangue, daqueles que herdam privilégios sociais porque a sorte fez com que fossem filhos da nobreza.
Essa aristocracia não era de modo algum meritocrática. Ser filho de alguém e em decorrência herdar grande riqueza e posição social não é mérito. Quando elogiei Barack Obama por ser o tipo americano, que vence na vida pelo próprio esforço, foi que defendi a meritocracia. Tipo americano — não preponderante mas arquetípico — que pode ser visto não só naqueles Estados Unidos da América, mas também na Argentina de Jorge Luis Borges ou no Brasil de Machado de Assis. Arquetípico porque todo americano (continentalmente falando) é um desterrado jogado à própria sorte. Brancos, negros, amarelos, somos a nova terra.
A Universidade Americana e os Despossuídos
Qualquer um que por esforço próprio vá bem na High School tem acesso garantido a uma boa universidade (college), ainda que a anuidade fique entre 10 e 50 mil dólares, pois o sistema de financiamento estudantil — bolsas integrais e parciais inclusas — funciona muito bem naquele país. Sempre por volta da metade dos alunos que vão para a Ivy League (Harvard, Princeton, Yale, etc.) vêm de escolas públicas. Além disso, não há discriminação por cor ou etnia, já que negros, hispânicos, orientais e estrangeiros em geral são cerca de dois quintos do total — como se pode ver, por exemplo, pelo perfil de Princeton disponibilizado pelo College Board.
Visão Alternativa ao Welfare State como Solução Virtuosa
O keynesianismo venceu o debate econômico das décadas de 30 e 40. Quase todo o mundo tomou medidas reguladoras do mercado, tentando segurar as suas rédeas, pois caso contrário viria o caos, o desemprego e a infelicidade geral das nações. Franklin Roosevelt, Adolf Hitler, Benito Mussolini e Josef Stálin eram todos fortes intervencionistas. E tanto Estados Unidos, Alemanha, Itália e União Soviética “venceram a crise de 1929″ com idéias sumamente estatistas.
A visão alternativa a essa interpretação do estado de coisas é que foi o Estado que causou a crise de 29. Foi o Estado que inundou o mercado de “notas sem lastro”. E o mesmo ocorre hoje com a crise dos subprimes, isto é, ao menos na visão dos liberais ditos austríacos, como aqueles que escrevem para o LewRockwell.Com. Um deles, Thomas J. DiLorenzo, escreveu um texto só para explicar como foi o Estado que aos poucos, em decorrência de uma política de ação afirmativa burra, criou a crise:
The thousands of mortgage defaults and foreclosures in the “subprime” housing market (i.e., mortgage holders with poor credit ratings) is the direct result of thirty years of government policy that has forced banks to make bad loans to un-creditworthy borrowers. The policy in question is the 1977 Community Reinvestment Act (CRA), which compels banks to make loans to low-income borrowers and in what the supporters of the Act call “communities of color” that they might not otherwise make based on purely economic criteria.
Em suma, seja na questão do Health Care (sistema de saúde americano), seja na questão do crédito fácil incentivado pelo Estado, há quem ache que é justamente o fato de o Estado intervir no mercado, tentando “humanizá-lo”, que cria grandes crises imobiliárias e financeiras em geral.
Contra os Liberais Estatistas, a Favor de Obama
Quando defendo a candidatura de Obama não o faço, em momento algum, por concordar com uma idéia sequer que surja dos “liberais estatistas” (eles o são!) e politicamente corretos do Partido Democrata. Eu o faço porque, como qualquer pessoa que suba na vida por esforço próprio, Barack Obama, negro e pobre, merece ser presidente. Assim pede a meritocracia americana, independente do azul democrata ou do vermelho republicano. O simbolismo, no caso, é mais importante que o programa partidário.