BrOi, Ou: Brasil Telecom, Oi!

Há algum tempo não é mencionado o assunto política neste espaço. Mas dados dois fatos recentes, não havia como fugir. Tanto o recorde de arrecadação sem CPMF, como a compra da Brasil Telecom pela Oi! são dignos de menção. Há um enorme bafafá de parte do jornalismo orgânico criptopetista em torno dos interesses econômicos da Veja, recentemente bastante próxima da TVA e do próprio grupo Telefônica. O que os Amorims e Nassifs então não deixavam claro é que eles mesmo trabalhavam para a provável grande concorrente da Veja (a tal da BrOi); não diziam também que as personalidades ligadas à compra eram empreiteiros do grupo Andrade Gutierrez, sendo que vários dos Andrades (como a ex- de Luís Favre, Marília) eram ou são petistas históricos. Isto sem contar a participação no negócio de Carlos Jereissatti, irmão de Tasso (PSDB-CE), aparentemente de relações rompidas.

O que irrita até a última ponta dos nervos nesse imbrólio todo é que muitos petistas acusem os interesses econômicos alheios, quando eles mesmos estão lotados deles, loteados, prontos a mudar a lei para que o capital avance em seu favor. Não foi muito diferente com a figurinha de Marcos Valério, nem com Delúbio Soares. Mas essa é a húbris do partido, mais ridícula que a hipócrita parcimônia tucana, quando parte do partido pretende reanimar os ares ideológicos que motivaram 1930. Não é à toa que os “pelegos” da Força e do PDT estão envolvidos; não é à toa que vivemos um sindicalismo praticamente de Estado. Não é à toa que a subversão mentirosa tenha tomado o posto de toda a ordem institucional, mantendo-a somente através de uma verossimilhança aparente, quando a aparência de verdade só se parece mas jamais aparecendo como tal, logrando os idiotas úteis, prontos a defender a corrupção sistêmica de seus empregadores, já que afinal os que os antecederam desfizeram, então acataremos o estado de coisas.

Quanto à CPMF, é terrível lembrar dos argumentos canalhas de que se estaria tirando dinheiro do povo e da saúde; dinheiro que faria falta. Não fez, nem fará, e a arrecadação continuará crescendo. E mesmo que os preços não tenham baixado por causa da extinção do imposto, é possível que eles tenham sofrido um aumento menos forte por causa dela, já que a inflação aí está, ameaçando meio ou mundo inteiro. “Sem CPMF, arrecadação sobe”, eis uma nova que demorará para caducar.

Só Nos Resta a Vida Eterna

Sem medo de repetir-me, digo que dizer tudo o tempo todo é impossível. O mar de som e fúria conseqüente nos afogaria. Ao mesmo tempo é ponto pacífico que almejamos à felicidade. Queremos uma boa vida. O preço desta é que calemos muito e que mantenhamos constantemente um silêncio respeitoso. O contrário disso seria como arrotar à mesa do almoço de domingo: por mais que expiar certos ares seja uma tendência natural e necessária, é inoportuno que o façamos de público, isso embora haja certo culto à irreverência que apoiaria essa afetação.

É preciso aceitar que os simulacros existem. Prezadas são as aparências, em qualquer lugar, em qualquer momento. A face por si já é uma máscara; e até dar-se a conhecer como pessoa, mesmo que para si mesmo, é saber aparências. Não há como fugir do princípio de que só nos conhecemos como pessoas enquanto uma aparência que se dobra aos nossos próprios olhos. O “eu” mais fundo só pode ser conhecido por outro, por algum outro que não esteja encarnado nas aparências; um tal que não nos apareça, embora pareça oculto e muitas vezes postulado como indeterminado ou inexistente. E como nós, que nem podemos conhecer perfeitamente a nós mesmos, poderíamos conhecer-lhe mais que aparentemente? Como nós, que vivemos na dúvida, poderíamos não duvidar até desse outro?

Mesmo que o que valha sejam as intenções, elas, em si mesmas, são-nos incognoscíveis. Nosso conhecimento delas é imperfeito e só temos acesso lógico a sua existência em decorrência dos simulacros de intenções, muitas vezes falsificados. A refração do ser nas categorias, nesse sentido, não é mais que a sua decadência; e o ser em si jamais tocamos. E o ser em si é primeiro na ordem das causas, embora na ordem do conhecimento seja o último e apareça como um restinho, quase esgotado, de suporte do simulacro.

Tudo que nos resta é, como Sísifo, esperar que da próxima agarraremos o topo, segurando-o. Mas claro está que se trata de uma esperança em falso. A árvore do conhecimento nos despiu de todo, deixando-nos um único restinho de algo, a esperança; mais importante que elas nos é a árvore da vida, da qual fomos impedidos de comer. Foi assim que nossa húbris foi punida, isto é, como um castigo histórico, como o castigo de estar no tempo ao passo que nos corrompemos e morremos. Resta-nos apenas um acordo com o representante (ator) do autor. Servos seus, para que simulacros sejamos sustentados pelo único que está verdadeiramente de pé.

Como Não Discordar da Tolerância Liberal

Quem nunca falou mal de outra pessoa? Há como viver nessa terra e nem vez por outra falar de pessoas? Digo eu que é impossível. O tempo todo falamos dos outros, e há uma razão para isso: somos animais políticos (como disse Aristóteles). Não é difícil perceber que a organização social gira em torno do útero, dos progenitores, da família. E daí surgem as tais células que findam nas comunidades, que aglutinadas geram a pólis — essas sob uma dada constituição política. E que são o único meio, ainda segundo Aristóteles, de o homem realizar a sua essência.

Não há como deixar de falar de pessoas. Isso as simplifica, sem dúvida alguma. Falar sobre algo é sempre objetificá-lo, tornando-o objeto de nosso interesse, mesmo que temporário. E quantos são os cientistas aptos para falar sobre pessoas particulares? É difícil ir além de nenhum; a ciência se faz do geral, o particular serve apenas de falseamento, teste. Por isso, talvez, falar de pessoas determinadas seja sempre uma espécie de falseamento, em que testamos hipóteses mais gerais, essas devindo principalmente de valores ou opiniões genéricas.

Só que o falseamento não é o mesmo que a falsificação. O falar de não é uma mentira, e sim o teste para se saber se se trata de uma mentira aquilo que se diz de algo. Ao menos deveria ser assim, não estivéssemos sempre tão cheios de convicção sobre aquilo que dizemos — convicted é como o juiz condena o condenado. E tudo isto não se resolve, por mais que eternamente se mande lamber sabão.

Não há de fato maneira de se evitar, no estado de direito, que falem mal de nós. Há que se aceitá-lo, impreterivelmente, como parte do jogo. A única exceção seria recorrer às tais evictions, não as de um pedaço de terra dentro de uma nação, mas as de uma nação mesma. Foi assim que se formaram colônias penais, como certos países austrais o foram, quando criminosos incomodavam por demais as devidas metrópoles.

Mas foi também contra isso que o liberalismo se insurgiu, quando antepôs-se ao absolutismo do tal do Ancien Régime. E contra as liberdades individuais, como a de expressão, não há de fato como evitá-las; e, por mais que elas nos doam, têm de ser toleradas.

(Este texto não é mais que uma livre variação em torno de outro, O feudo da opinião, publicado em Ordem Livre.)

Qual Morte é o Sentido de Certa Vida?

Se houvesse uma definição para o dia de hoje, diria que é a de dia de nuvens. Quando o céu não está tão claro, não se pode antever o futuro. Não vivemos a tempestade já, mas poderemos vivê-la em breve; é que as nuvens tanto podem aglutinar-se para o derradeiro temporal ou simplesmente dissipar-se. A medicina grega poderia vir em socorro, fornecendo um termo bastante preciso para definir a situação: crise.

A pergunta costumeira então vem a agarrar-nos o pé: e quando, na história da humanidade, não vivemos um tempo de crise? Nunca há novidade debaixo do sol, diria alguém mais sábio, de mais de dois milênios e meio de idade. Mas, no sentido original hipocrático, que era uma crise? Provavelmente um estado de tensão entre uma díade de opostos que exige a supremacia de um dos lados. É necessária a (dis)solução, já que a tensão jamais é eterna.

Ou o tempo (”agora”) é essa tensa (”ântero-posterior”) expressão da eternidade? Ou, de outra forma, é o tempo a crise permanente? E, se permanente, até quando? Haverá então o final dos tempos?

Não é de se estranhar que a maior parte das pessoas passe por cima das crises. Tratam-na com anestésicos os mais vários. Mas a suspensão temporária da sensação não dá cabo do problema, apenas o procrastina. E que é que nunca deixamos para depois, a não ser a própria procrastinação? Viver mesmo não é de certa maneira procrastinar a morte?

É preciso dizer com toda a força, reativamente mesmo, que a fraqueza não deve mesmo ter vez e que é preciso ir à guerra. Há que finalmente se reconhecer que certo oráculo estava certo. A questão não é “por que viver”, mas “pelo que morrer”. E não falamos aqui da ebriedade terrorista ora dita islâmica. Falamos da clássica kalos thanatos, porque há uma bela morte e há causas por que morrer.

Não se deve pensar que o termo “guerra” é específico. Não o é. Não se refere aqui a uma técnica específica. A vida, uma crise, é também uma guerra. Não a guerra pela simples sobrevivência, como se se tratasse apenas do alimento fisiológico, direcionado à auto-conservação. A guerra é o meio para a bela morte, já que a morte mesma terá de vencer, mesmo que pirronicamente. E aqui é o ponto que nos interessa: é preciso viver de maneira que a vitória de Tanatos seja pirrônica. E como disse um sábio, embora não o mais genial, só Um venceu a morte, só Um voltou do vale da sombra da morte e decretou vitória ali.

A vida então é para ser vivida com amor, para que na morte se a ganhe; ou sem, para que na morte se a perca. Daí que a questão decisiva seja o ideal, que é o que nos guia e dá sentido à jornada (don’t think of Star Trek, you dumbass). Ideal que não é senão aquilo por que morrer.

Palatando © Adriano Correia