A Crítica à Pura Cretinice

Peço aos senhores que leiam essa e essa redação e me digam se não é de dar vergonha do ponto a que chegou a Fuvest. E, pior, ao que tudo indica tanto o sujeito que diz que “a filosofia epistemológica e a social não conseguem ultrapassar o irreal”, como o outro que diz que “é preciso ter vigilância epistêmica” são calouros de filosofia. O primeiro legitima um argumento dizendo “[m]as, há um denominador comum em todas as concepções, o respeito a norma da não contradição e da logicidade dos argumentos, fatores que segundo Marilena Chauí promovem uma verdade mesmo que provisória”. Não vou entrar nem no mérito do que foi dito, nem vou falar sobre as incorreções gramaticais e ortográficas, já que elas parecem ser a norma do dia. Porém gostaria de entender como raios alguém fundamenta um argumento na autoridade para depois dizer que “[d]estarte alguns especialistas crêem que apenas autores universitários ou renomados seriam fonte do ‘indubitável’, mas…”. Quer dizer, o sujeito usa um argumento de autoridade e em seguida introduz uma adversativa que põe em xeque argumentos de autoridade… porque o fato de serem “autores universitários” não lhes garante “a lógica ‘ideal’ e também não retira a sua parcela de intencionalidade explicada pela fenomenologia de Husserl”. Espera lá, será que agora a Fuvest premia a ignorância travestida de pedantismo? Ou será que o rapaz em questão não confunde “interesses” (como em “interesses econômicos”) com a tal da intencionalidade? Porque esta nada tem a ver com intenções escusas ou interesses quaisquer, nesse sentido pejorativo de “estar interessado”. Poderia dizer, para simplificar o imbróglio, que a intencionalidade nada mais é que o fato da consciência operar “indexicalmente”, quer dizer, como se ela mesma tivesse um dedo indicador próprio. O fato de que estados mentais apontem para algo, é isto que Husserl chama de intencionalidade. Mas aparentemente não estava claro que até “autores universitários” são humanos, dotados de consciência.

Antes, redações de Enem (reais ou forjadas) viravam motivos de piada. Agora, redações com títulos garbosos do tipo “A crítica da informação pura” — e é difícil pensar em algo que faça menos sentido — tornam-se as melhores da Fuvest! É mesmo a iniciação ao mundo da douta ignorância, em que referências culturais mal compreendidas tornam-se virtuosismo.

Brasil: Terra por Colonizar

O americano médio ganha algo em torno de 35 mil dólares por ano. O brasileiro médio, algo em torno de 30 mil reais. Só que, levada em conta a paridade do poder de compra, um brasileiro médio compra aqui, em média ressalte-se, o mesmo que um americano compra lá. Se virem o PIB do Brasil em dólar corrente, ele será x, mas em dólar paritário será 2 ou 3x. Ou seja, da passagem do valor corrente para o valor paritário, o real vale mais ou menos o mesmo que o dólar, daí que, embora as classes médias dos dois países vivam uma situação social diferente, economicamente ela não é tão diferente assim. É claro que se analisarmos fatores tecnológicos, quase tudo lá será mais barato; mas em algum outro lugar incerto a paridade compensa isso (provavelmente, no Brasil, moradia e alimentos). É muito mais barato morar em São Paulo do que em Nova Iorque, assim como é mais barato viver numa cidade do interior do Brasil, comparado a viver em uma cidade do interior dos Estados Unidos.

Um professor universitário de filosofia ganha lá, caso seja professor assistente, em início de carreira, cerca de US$ 60 mil/ano, enquanto um professor doutor no Brasil, em qualquer universidade pública, ganhará R$ 60 mil/ano ou algo próximo, se não mais. (Em compensação o presidente aqui ganha aproximadamente R$ 100 mil/ano, enquanto um presidente americano ganha US$ 400 mil/ano.)

O que muda a qualidade de vida, porém, é o desenvolvimento: ou como comparar o acervo da Amazon com a da Livraria Cultura? Sempre se pode dizer que podemos comprar os livros na Amazon, mas é claro que nesse caso o dólar corrente pese (embora cada vez menos), assim como o frete — aliás, dizem as más línguas que algumas livrarias brasileiras revendem livros importados da Amazon.

Assim será também caso queiramos montar um computador, peça por peça. As revendas no Brasil são caríssimas, e mesmo que tentemos comprar uma placa mãe de real qualidade (por exemplo, a Intel DX38BT) no Mercado Livre, veremos que são pouquíssimos os que a vendem, e que o preço não fica longe de uma revendedora séria. Em comparação, pode-se comprar a mesma placa numa loja de Miami, a Tiger Direct, por US$ 230,00 (convertendo direto daria R$ 380,00), enquanto na SmartData paga-se R$ 970,00.

É claro que sempre pode-se recorrer a uma fabricante séria como a Dell — que um dia blogueiros quasi-profissionais descobrirão que paga comissões altíssimas (deixando UOL, Terra e Mercado Livre loucos de alegria). Mas são PCs intermediários, e não permitem o DIY, que significa, afinal, liberdade e controle da propriedade, ao contrário do que seria recorrer a fabricantes como Microboard e Megaware e ficar dependente de um suporte técnico chato (e talvez de baixo coeficiente “cognoscente”), comprando mercadorias de baixo-custo em um site como o Extra.com.br e recebendo três máquinas insatisfatórias e com problemas ridículos (e como queria ter disposição para protocolar um requerimento na Promotoria de Consumo do Ministério Público, dado cada coisa que fazem por aí…).

Enfim, por mais que os salários possam ser paritários, um jovem americano pode montar a máquina que quiser, na hora que quiser, sem ficar refém das grandes manufaturas de computadores (Dell, HP, etc.). Assim como pode constituir uma enorme biblioteca comprando livros e mais livros na Amazon, ou simplesmente indo consultar as boas bibliotecas espalhadas “US-Wide”. Já no Brasil o homem que se auto constrói, o homem que se faz por si mesmo, vive ainda na época do Far West, tendo muitas vezes de lutar por sua carreira acadêmica na base do pistolão (afinal, o Oeste é selvagem). Mas é assim que funciona essa nossa civilização d’oeste, ocidental. Já a Este, é na base do turbante ou do terremoto. Então melhor lutar por cá, nos trópicos austrais deste Wild West. Ou, como me disse Renato Janine Ribeiro, por e-mail (circa 2005), explicando-me* que não haveria bolsa possível no Brasil que pudesse me levar para o St. John’s College, “o que não tem remédio, remediado está”.

* Ao cabo de que recebeu vários spams com textos de Otto Maria Carpeaux.

O Fim dos Wunderblogs (2002-2008)

Antes de falar sobre assuntos vãos (nós e os outros), vão ouvindo essa canção dessa estranha bandinha que apareceu do nada na SomaFM (best radio station ever):

Get the Flash Player to see the wordTube Media Player.

Mus - Añada Pal Primer Mes (do álbum La Vida)

Juntando-me a este e aquele rapaz, resolvi escrever algo sobre o fim dos Wunderblogs, que foi um dos fenômenos mais interessantes que já apareceram na infante internet brasileira — se bem que a internet é infante worldwide.

Se minha memória não falha, eu os conheci quando Julio Lemos abandonou o seu endereço capitalismo.blogspot.com para adentrar no mundo de maravilhas em ultramontano.wunderblogs.com. Acho que foi isso, ou algo assim. Já o blog do Julio, conheci-o através de um cara aleatório no ICQ (acho que o adicionei ao copiar um UIN errado) — aliás, trata-se hoje de um dos sujeitos mais interessantes que conheço, embora admiti-lo possa soar meio… alegre, digamos.

É incrível perceber como a vida pode ser feita de momentos totalmente aleatórios, sem que algum nexo causal firme possa dar conta do significado desses movimentos. Foi assim que conheci “Maria Madalena”, pelo Soulseek, procurando um álbum (”Caos Mental Geral”) de uma banda de panque roque brasileira, Cólera. Aliás, o nome do programa (as in Napster) é Soulseek sabe-se Deus por quê, embora seus membros apenas queiram baixar emepetres — nada romântico, a despeito do nome.

Enfim, voltando ao assunto, conheci os Wunderblogs mais ou menos em 2003. Na mesma época estava descobrindo alguns textos daquele cujo nome não deve ser mencionado — principalmente aquele que trata de Educação Liberal. Do nada, acho que já pelo MSN, depois de ter passado o endereço do blog do Ortiz a Lolla Moon, ela vem e me passa o link de um texto em que Felipe Ortiz falava sobre aquele que parecia ser um de seus maiores interesses na vida, os tais Great Books of the Western World. O Alexandrinas foi então o segundo blog que passei a ler dali, depois do do Julio.

Pouco depois passei a ler o Aqua Permanens, do hippie (cof) Marcelo De Polli. Digo hippie porque o cara apareceu todo cabeludão e barbudo numa reportagem que a TV Cultura fez sobre o lançamento do livro dos Wunderblogs na Livraria Cultura. Mas, enfim, antes disso acabei me enervando com qualquer coisa de um texto do De Polli em que ele dizia que a turma do Lula só queria parasitar o capitalismo. O grande conflito que eu via naquele texto era a coexistência de dois fatos estranhos (se bem me lembro): a idéia de que havia desenvolvimento capitalista, ao passo que a turma do PT só queria parasitar o capitalismo. Foi quando entrei na minha primeira e única grande discussão com os vândalos, de que sempre fui fã, assinando Trotskista (e disso houve até ecos e xingamentos).

Mais tarde, em 2006, logo depois de ter entrado na USP, criei um blog chamado “besouro verde” (no Blogger), sem saber que esse maldito nome era título de um filme de Bruce Lee — se arrependimento matasse —, do qual acabei descobrindo que o Alexandre gosta (refiro-me ao filme). Também disso há ecos, porque aparentemente eu tinha mania de escrever muitos e muitos comentários por lá na época (às vezes, agora, transfiro essas pulsões para o lado negro, aka smart ass of blue).

Descobri briguinhas, gerei uma ou duas delas, assisti outras várias, li arquivos… fiquei marromenos amigo do Marcelo Rota — ele e aquele garoto sujo me defenderam na época do besouro, quando os vândalos (mainly o Martim do B, Radamanto) ficavam fazendo fofoquinha sobre mim no fórum deles.

Veio a época do Protosophos, conheci Julio Lemos pessoalmente, pelo qual encontrei Alexandre e Radamanto num Fran’s Café da vida. Aliás, a situação foi terrivelmente constrangedora. Imaginem vocês que 3/4 dos que estavam lá vão embora e ficamos eu, o Nagase (do Protosophos), o Alexandre e o Radamanto à mesa, sem assunto. Mesmo lançando provocações do tipo “blogs portugueses são muito chatos”, o Alexandre permaneceu impassível… e horripilantemente tímido. Deus, como o cara é tímido.

Por fim, vá Kardec entender por quê, o Alexandre resolveu conceder a melhor entrevista de todos os tempos para o Protosophos. Entrevista a qual se encontra totalmente perdida num desses caninhos aí da internet. Isso depois do Rota estrear aquelas nossas entrevistas do sábado, da qual depois participaram Pedro Sette Câmara e Janer Cristaldo — a quem contatei talvez por admirar a admiração que Juliana Lemos um dia expressara pelo cara em um dos seus posts, chamando-o de poliglota e tal.

Aliás, maldita seja Miss Veen. Uma vez cheguei a mandar um e-mail para ela (idos de 2003), no qual mais ou menos me apresentava (acho que dizer a minha idade pôs tudo abaixo); logo ela achou que se tratava de uma brincadeira e respondeu com um “você não acha que vou cair nessa, né?”. Malditos vândalos que viviam pregando peças entre si.

Acho que encerro aqui. Abruptamente talvez. Assim como abrupto foi o fim dos wunders (embora de um repentino aos pouquinhos, convenhamos). Assim como abrupta foi a ida do Filthy para o A Postos. E assim como será a triste ida de Soares Silva para lá.

E, sim, eles foram bons. E sim, estão sepultando definitivamente a adolescência de muita gente, inclusive a minha — talvez a de Alexandre também, embora ele já tenha seus inexplicáveis cabelos brancos, ao que de repente penso, será ele Johnny Depp com suas mechas kardecistas branquinhas? Mas, seja como for, não digam “nunca antes na história do Brasil…” para os vândalos. Eles já o estão fazendo… vão assim acabar se juntando ao autoproclamado maior filósofo e ao também autoproclamado maior poeta desde Camões… para não dizer que o “Zeitgeist” presidencial os condena. E, sim, foram ótimos, etc., etc.

Impressões em Torno da Dialética do Esclarecimento

Enquanto lia a Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer, ia percebendo muitas coisas que não esperava da leitura de membros de um instituto que fora criado com o fim de trazer revoluções socialistas para toda a Europa. Ao mesmo tempo, pesava a interpretação de um amigo, que não lera o livro, mas que dizia que a Dialética era mais uma tematização do problema do mal devido a Auschwitz e ao fenômeno do nazi-fascismo, que teria surgido pela hipertrofia da racionalidade. Pesavam esses prejuízos pois, que me combateram durante toda a leitura. Até agora, porém, não teria um posicionamento simples sobre o assunto do livro, não poderia dizê-lo com absoluta certeza.

O que poderia dizer, já levando a interpretação para uma toada pessoal, é que o livro é o resultado da tensão de dois extremos: o esclarecimento enquanto desenvolvimento da luz natural, isto é, da razão, e a superstição enquanto estado anterior à racionalidade que tenta domesticá-la. De pronto não é simples identificar os referentes históricos de cada um desses limites, ainda mais quando a mitologia grega já é vista como parte do processo de esclarecimento (“enlightenment”, que dá idéia de movimento), visto que o mundo helênico vivia da navegação e do comércio de mercadorias, que é afinal o germe do cálculo, dos pesos, das medidas e das frações racionais, ou simplesmente da razão.

Sobre Ulisses versa o primeiro ensaio, tentando identificar o herói com um modelo de astúcia, ao brincar com a dubiedade de seu nome, que segundo Adorno e Horkheimer significaria “ninguém”. Assim quando o gigante quer persegui-lo e pergunta “Quem está aí?”, Ulisses responde “Ninguém”, tanto personificando quem nada seria, como despersonificando a si mesmo. Nessa dubiedade já se antevê o cálculo racional, no extremo de ambigüidades lingüísticas. Na resistência ao “canto das sereias” — expressão carregada de sentido pejorativo em português, embora também, claro, tendo um sentido neutro — viam os autores da Dialética também algo que já era uma resistência à superstição, embora se imiscua totalmente nela. Resistência à superstição que já é um sinal das revoluções burguesas, que no fundo não passam de revoluções comerciais, tilintadas no cálculo monetário dos pesos e das medidas, ou na “ordem e medida”, como talvez preferisse dizer o filósofo da aurora racionalista burguesa, René Descartes.

No tema do calculismo prosseguem Adorno e Horkheimer, agora tratando da Juliette de Sade, defensora das pirâmides orgiásticas, em que o sexo se tornava mero mecanismo, reificando-se em uma espécie de mercadoria racional “pervertida”. O que mais importava então era a eficiência, e os partícipes desses grandes bacanais deveriam ser como os ginastas que treinam sem parar, de forma que seus gestos e movimentos tenham uma eficácia ótima, ou em bom português otimizada. A Sade, Adorno e Horkheimer associam Kant, comparação que não se sabe, por já tão comum parecer, quem foi o grande pioneiro; o filósofo francês Gilles Deleuze, em época próxima, estabelecia comparações parecedíssimas, em sua Apresentação de Sacher-Masoch. E que haveria na ética kantiana que o aproximaria do escritor de livrinhos para a burguesia? Ora, tudo nela é procedimental, não devendo que o tal sujeito transcendental (uma espécie de homem desencarnado) em momento algum se deixasse levar por coisas menores como intenções ou sentimentos. Ambos deveriam estar fora do cálculo das tais máximas universalizáveis, que após passarem pelo procedimento do imperativo categórico, poderiam ou não se tornar leis morais, que deveriam ser seguidas como leis da natureza. Assim, se a polícia está procurando um amigo seu que está escondido em sua casa e ela bate em sua porta perguntando por ele, não se deve em hipótese alguma mentir, devendo-se dizer de pronto que lá está ele. Jamais, pois, a mentira é lícita na moral kantiana, não havendo as tais white lies. Daí a se associar o anão de Koenigsberg ao carrasco nazista, não se está tão longe, como de fato se o fez, pois o que importa é obedecer as ordens da moral esclarecida, da ética procedimental do Esclarecimento (ou Iluminismo, como se diz nos livros de história brasileiros).

Por fim, tratam da questão do judeu, figura feminina porque fraca (em que lembram Otto Weininger), em que recai o ódio dos oprimidos e explorados, porque é a face visível da dominação burguesa, de quem são apenas os “mensageiros”, já que pequeno-burgueses, donos de estabelecimentos comerciais submetidos à ordem de produção e circulação. Sempre recai no elo mais fraco o ódio das massas, já que o mais fraco é o primeiro a aparecer à vista.

***

Contudo, muito embora essa seja a camada mais visível do texto, não é ela a mais interessante. Há ainda duas ou três, sendo a mais importante, ao meu ver, a que leva a crítica do esclarecimento (ou a exposição de seu modo contraditório de operar) a um certo saudosismo tomista um tanto envergonhado e às vezes invertido. Deus nunca é frontalmente negado na obra, embora apareça de maneira mitigada, sempre de um ponto de vista feuerbachiano, mas bastante rarefeito. O que mais espanta é ver o aparente asco dos autores ao mesmo tempo pela promiscuidade casuística feminina — fique claro, isto não é uma generalização, mas uma especificação — e também pela dominação de gênero que as mulheres sempre sofreram. É curioso ver esses dois elementos conjugados, quando a liberação sexual apregoada pelas feministas na década de 60 parecia imiscuir-se em um certo exagero libertino. Porém os autores rejeitam com toda a força possível a libertinagem, que vêem como fruto da ideologia burguesa, isto é, do Esclarecimento (tal como movimento histórico). Na crítica à indústria cultural, dão um grande espaço ao tema da pornografia; e na repetição exagerada de motivos sexuais, classificam-na, lembrando certo ultramontanismo, de puritana. A exacerbação da importância do sexo e a satisfação de pulsões individuais na contemplação de atores e atrizes abre todo um mercado para o eterno retorno do consumidor. A prostituição mesma, uma espécie de câmbio comercial, embora traga o contato, ainda não é plena, já que a objetificação do ato sexual implica, de alguma maneira, um afastamento, que pode ser dito pelo descompromisso e também na relação de troca, no caso calculista. Juliette de Sade pode ser um exemplo disso.

Também o exagero etílico é puritano, dizem-no os autores. Somadas essas críticas “conservadoras” ao liberalismo burguês à crítica aos sindicatos e aos partidos, pode-se concluir com bastante facilidade que esses frankfurtianos não são socialistas tout court, e que podem ser tomados como pensadores originais, que, apesar de verem uma América pasteurizada e a criticarem sem fim, se preocupavam de fato com a questão da liberdade, da individualidade, mas principalmente com o conceito reverso a esses: o da dominação. É porque formas desumanas aparecem sob o capitalismo que se faz uma crítica à ideologia burguesa, e por conseqüência à modernidade. Nisso, por mais que criticassem a suposta vista grossa papal aos pogroms, fez de Adorno e Horkheimer motivo de reflexão filosófica um sujeito do porte de Joseph Ratzinger, piloto de frotas aéreas nazistas (embora não nazista) e papa que hesitou crer em Deus diante dos túmulos judeus. De certa maneira, por mais que maltratem a tal “filosofia da consciência” — um dos alvos principais da esquerda pós-moderna — parecem muito mais consciências perturbadas que tematizavam a questão do mal, e de sua banalidade totalitária, na época da Segunda Guerra. Mal que aparecia menor, mas ainda como mal, na indústria cultural e na dominação avassaladora que ela exerce sobre as subjetividades pasteurizadas das populações a ela submetidas. Não é por outra razão que surge a crítica ao american way of life, a Hollywood, e também a ridicularização dos vocábulos anglo-americanos.

Porém, por de trás da Dialética, resta um enorme pessimismo em relação não só à natureza humana, mas também em relação à natureza em si mesma, a qual dominaríamos, de acordo com a ideologia moderna de Bacon e Descartes. Não foi esse o resultado de séculos de esclarecimento, e tudo que nos restou então foram procedimentos e cálculos, típicos da era burguesa, amorais, frios, que findaram por justificar as maiores imoralidades, por parte daqueles que se tomavam como guias iluminados; em suma, nada mais restava desse esclarecimento senão uma fria justificação racional, ou seja, uma ideologia, pronta a servir de pretexto para a dominação — ou para, quero crer, a expressão do mal.

Palatando © Adriano Correia