Uma das coisas que mais tem me irritado é o tom de pretensão. O difícil é saber exatamente como acabar com ele, já que as dicas fáceis do tipo “escreva como se estivesse tendo um diálogo com um amigo” parecem um tanto infantis, embora eu admita que possam de fato funcionar. Estive lendo Adorno recentemente, o filósofo da chamada Escola de Frankfurt. Tudo culpa de uma disciplina na faculdade. O que eu achei interessante ali, porém, é que no fim de seu discurso (deve tratar-se de uma palestra em uma conferência), Adorno defende-se da acusação de ensaísta. O problema, diz ele, é que o ensaio passou a ser tomado como atividade literária e não mais que isso. Rebate dizendo que os empiristas ingleses e o próprio Leibniz escreveram ensaios. Não menciona, o que é um tanto estranho, o próprio propagador dessa forma literária, um cético.
Sképsis, para os gregos, era uma forma de vida que consistia no exame. Cético, a pessoa que assim vivia. Nesse sentido, é difícil dissociar filosofia de ceticismo. E nenhuma pessoa que busque viver uma vida contemplativa, baseada no crivo da razão, terá pretensão maior de ensaiar alguma forma de conhecimento, mesmo que o faça mais tarde para mostrar ao grande público. Não parece ser outro o caso da filosofia e da maneira como encaravam os filósofos a sua própria obra. Isso deve decorrer do fato da finitude. Nenhum ser finito, como o homem, poderia pretender ter a palavra final sobre um assunto. Um ensaio, em seu sentido filosófico-literário, opera por uma série de fios condutores. São idéias, conceitos e termos que ganham vida própria nas teclas do autor, e que lhe impõem o que passará pelos dígitos de seus dedos. É impossível que, nesse processo em que consiste o ensaio, a linguagem não ganhe vida própria e passe a se reproduzir por si mesma, inclusive referenciando-se a si própria. Tudo bem que a auto-referência deve-se ao sujeito. Mas a boa pergunta é: quem escreve? E que milagre é esse dessa vozinha aí nessa cabeça (ou cabeçona em alguns casos) ditar a impressão em tela dos dígitos?
O problema, dizia, é algo como o tom de pretensão. Isso me irrita. Como se houvesse um ar sisudo posando de sério. Nada mais sério que o riso e que a troça. E não se trata de paradoxos ou de joguinhos com palavras. Quer dizer, não se trata só disso. O próprio ensaio já tem um ar pretensioso, mesmo que funcione de maneira aporética, mesmo que o autor não tenha uma finalidade muito clara naquilo que está escrevendo. Mas que se deve escrever e que convenção pode assegurar que um dado método é o corretíssimo? Não nego aqui a convenção, nem poderia. O grande problema aqui, sem hipérbole, é que mesmo que todos dissessem que a Terra é de fato plana, isto não faria dela um plano. Por mais que o pensamento queira forçar-se por sobre as coisas, o máximo que ele pode fazer é espanar-se, tal como um parafuso insistente em demasia. Fato é que as coisas são arredias, mais ainda que os próprios homens, todos sempre cheios de ciência e sabedoria.
A finalidade, provavelmente, é coisa última. Tem a ver com a perfeição, isto é, com o completar-se de uma atividade. Mas que atividade está pronta? Para que uma atividade estivesse pronta seria necessário que deixasse de ser atividade, e sabemos que universalmente nada cessa, e mesmo que cessasse, então já não seria cognoscível, fazendo com que jamais pudéssemos saber de algo que cessou por completo. O nosso demasiado humano sempre pretende conhecer muito, mas que sabemos do completo, se o próprio círculo não é em ato e sim apenas em potência? Que sabemos da infinitude, a não ser que supomos ser infinita? Há algo mais que convenção? E se houvesse, como poderíamos sabê-lo?