Enquanto lia a Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer, ia percebendo muitas coisas que não esperava da leitura de membros de um instituto que fora criado com o fim de trazer revoluções socialistas para toda a Europa. Ao mesmo tempo, pesava a interpretação de um amigo, que não lera o livro, mas que dizia que a Dialética era mais uma tematização do problema do mal devido a Auschwitz e ao fenômeno do nazi-fascismo, que teria surgido pela hipertrofia da racionalidade. Pesavam esses prejuízos pois, que me combateram durante toda a leitura. Até agora, porém, não teria um posicionamento simples sobre o assunto do livro, não poderia dizê-lo com absoluta certeza.
O que poderia dizer, já levando a interpretação para uma toada pessoal, é que o livro é o resultado da tensão de dois extremos: o esclarecimento enquanto desenvolvimento da luz natural, isto é, da razão, e a superstição enquanto estado anterior à racionalidade que tenta domesticá-la. De pronto não é simples identificar os referentes históricos de cada um desses limites, ainda mais quando a mitologia grega já é vista como parte do processo de esclarecimento (“enlightenment”, que dá idéia de movimento), visto que o mundo helênico vivia da navegação e do comércio de mercadorias, que é afinal o germe do cálculo, dos pesos, das medidas e das frações racionais, ou simplesmente da razão.
Sobre Ulisses versa o primeiro ensaio, tentando identificar o herói com um modelo de astúcia, ao brincar com a dubiedade de seu nome, que segundo Adorno e Horkheimer significaria “ninguém”. Assim quando o gigante quer persegui-lo e pergunta “Quem está aí?”, Ulisses responde “Ninguém”, tanto personificando quem nada seria, como despersonificando a si mesmo. Nessa dubiedade já se antevê o cálculo racional, no extremo de ambigüidades lingüísticas. Na resistência ao “canto das sereias” expressão carregada de sentido pejorativo em português, embora também, claro, tendo um sentido neutro viam os autores da Dialética também algo que já era uma resistência à superstição, embora se imiscua totalmente nela. Resistência à superstição que já é um sinal das revoluções burguesas, que no fundo não passam de revoluções comerciais, tilintadas no cálculo monetário dos pesos e das medidas, ou na “ordem e medida”, como talvez preferisse dizer o filósofo da aurora racionalista burguesa, René Descartes.
No tema do calculismo prosseguem Adorno e Horkheimer, agora tratando da Juliette de Sade, defensora das pirâmides orgiásticas, em que o sexo se tornava mero mecanismo, reificando-se em uma espécie de mercadoria racional “pervertida”. O que mais importava então era a eficiência, e os partícipes desses grandes bacanais deveriam ser como os ginastas que treinam sem parar, de forma que seus gestos e movimentos tenham uma eficácia ótima, ou em bom português otimizada. A Sade, Adorno e Horkheimer associam Kant, comparação que não se sabe, por já tão comum parecer, quem foi o grande pioneiro; o filósofo francês Gilles Deleuze, em época próxima, estabelecia comparações parecedíssimas, em sua Apresentação de Sacher-Masoch. E que haveria na ética kantiana que o aproximaria do escritor de livrinhos para a burguesia? Ora, tudo nela é procedimental, não devendo que o tal sujeito transcendental (uma espécie de homem desencarnado) em momento algum se deixasse levar por coisas menores como intenções ou sentimentos. Ambos deveriam estar fora do cálculo das tais máximas universalizáveis, que após passarem pelo procedimento do imperativo categórico, poderiam ou não se tornar leis morais, que deveriam ser seguidas como leis da natureza. Assim, se a polícia está procurando um amigo seu que está escondido em sua casa e ela bate em sua porta perguntando por ele, não se deve em hipótese alguma mentir, devendo-se dizer de pronto que lá está ele. Jamais, pois, a mentira é lícita na moral kantiana, não havendo as tais white lies. Daí a se associar o anão de Koenigsberg ao carrasco nazista, não se está tão longe, como de fato se o fez, pois o que importa é obedecer as ordens da moral esclarecida, da ética procedimental do Esclarecimento (ou Iluminismo, como se diz nos livros de história brasileiros).
Por fim, tratam da questão do judeu, figura feminina porque fraca (em que lembram Otto Weininger), em que recai o ódio dos oprimidos e explorados, porque é a face visível da dominação burguesa, de quem são apenas os “mensageiros”, já que pequeno-burgueses, donos de estabelecimentos comerciais submetidos à ordem de produção e circulação. Sempre recai no elo mais fraco o ódio das massas, já que o mais fraco é o primeiro a aparecer à vista.
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Contudo, muito embora essa seja a camada mais visível do texto, não é ela a mais interessante. Há ainda duas ou três, sendo a mais importante, ao meu ver, a que leva a crítica do esclarecimento (ou a exposição de seu modo contraditório de operar) a um certo saudosismo tomista um tanto envergonhado e às vezes invertido. Deus nunca é frontalmente negado na obra, embora apareça de maneira mitigada, sempre de um ponto de vista feuerbachiano, mas bastante rarefeito. O que mais espanta é ver o aparente asco dos autores ao mesmo tempo pela promiscuidade casuística feminina fique claro, isto não é uma generalização, mas uma especificação e também pela dominação de gênero que as mulheres sempre sofreram. É curioso ver esses dois elementos conjugados, quando a liberação sexual apregoada pelas feministas na década de 60 parecia imiscuir-se em um certo exagero libertino. Porém os autores rejeitam com toda a força possível a libertinagem, que vêem como fruto da ideologia burguesa, isto é, do Esclarecimento (tal como movimento histórico). Na crítica à indústria cultural, dão um grande espaço ao tema da pornografia; e na repetição exagerada de motivos sexuais, classificam-na, lembrando certo ultramontanismo, de puritana. A exacerbação da importância do sexo e a satisfação de pulsões individuais na contemplação de atores e atrizes abre todo um mercado para o eterno retorno do consumidor. A prostituição mesma, uma espécie de câmbio comercial, embora traga o contato, ainda não é plena, já que a objetificação do ato sexual implica, de alguma maneira, um afastamento, que pode ser dito pelo descompromisso e também na relação de troca, no caso calculista. Juliette de Sade pode ser um exemplo disso.
Também o exagero etílico é puritano, dizem-no os autores. Somadas essas críticas “conservadoras” ao liberalismo burguês à crítica aos sindicatos e aos partidos, pode-se concluir com bastante facilidade que esses frankfurtianos não são socialistas tout court, e que podem ser tomados como pensadores originais, que, apesar de verem uma América pasteurizada e a criticarem sem fim, se preocupavam de fato com a questão da liberdade, da individualidade, mas principalmente com o conceito reverso a esses: o da dominação. É porque formas desumanas aparecem sob o capitalismo que se faz uma crítica à ideologia burguesa, e por conseqüência à modernidade. Nisso, por mais que criticassem a suposta vista grossa papal aos pogroms, fez de Adorno e Horkheimer motivo de reflexão filosófica um sujeito do porte de Joseph Ratzinger, piloto de frotas aéreas nazistas (embora não nazista) e papa que hesitou crer em Deus diante dos túmulos judeus. De certa maneira, por mais que maltratem a tal “filosofia da consciência” um dos alvos principais da esquerda pós-moderna parecem muito mais consciências perturbadas que tematizavam a questão do mal, e de sua banalidade totalitária, na época da Segunda Guerra. Mal que aparecia menor, mas ainda como mal, na indústria cultural e na dominação avassaladora que ela exerce sobre as subjetividades pasteurizadas das populações a ela submetidas. Não é por outra razão que surge a crítica ao american way of life, a Hollywood, e também a ridicularização dos vocábulos anglo-americanos.
Porém, por de trás da Dialética, resta um enorme pessimismo em relação não só à natureza humana, mas também em relação à natureza em si mesma, a qual dominaríamos, de acordo com a ideologia moderna de Bacon e Descartes. Não foi esse o resultado de séculos de esclarecimento, e tudo que nos restou então foram procedimentos e cálculos, típicos da era burguesa, amorais, frios, que findaram por justificar as maiores imoralidades, por parte daqueles que se tomavam como guias iluminados; em suma, nada mais restava desse esclarecimento senão uma fria justificação racional, ou seja, uma ideologia, pronta a servir de pretexto para a dominação ou para, quero crer, a expressão do mal.
Uma Réplica
Ei, é vc q andou traduzindo Hannah Arendt por aí?