Como Não Discordar da Tolerância Liberal

Quem nunca falou mal de outra pessoa? Há como viver nessa terra e nem vez por outra falar de pessoas? Digo eu que é impossível. O tempo todo falamos dos outros, e há uma razão para isso: somos animais políticos (como disse Aristóteles). Não é difícil perceber que a organização social gira em torno do útero, dos progenitores, da família. E daí surgem as tais células que findam nas comunidades, que aglutinadas geram a pólis — essas sob uma dada constituição política. E que são o único meio, ainda segundo Aristóteles, de o homem realizar a sua essência.

Não há como deixar de falar de pessoas. Isso as simplifica, sem dúvida alguma. Falar sobre algo é sempre objetificá-lo, tornando-o objeto de nosso interesse, mesmo que temporário. E quantos são os cientistas aptos para falar sobre pessoas particulares? É difícil ir além de nenhum; a ciência se faz do geral, o particular serve apenas de falseamento, teste. Por isso, talvez, falar de pessoas determinadas seja sempre uma espécie de falseamento, em que testamos hipóteses mais gerais, essas devindo principalmente de valores ou opiniões genéricas.

Só que o falseamento não é o mesmo que a falsificação. O falar de não é uma mentira, e sim o teste para se saber se se trata de uma mentira aquilo que se diz de algo. Ao menos deveria ser assim, não estivéssemos sempre tão cheios de convicção sobre aquilo que dizemos — convicted é como o juiz condena o condenado. E tudo isto não se resolve, por mais que eternamente se mande lamber sabão.

Não há de fato maneira de se evitar, no estado de direito, que falem mal de nós. Há que se aceitá-lo, impreterivelmente, como parte do jogo. A única exceção seria recorrer às tais evictions, não as de um pedaço de terra dentro de uma nação, mas as de uma nação mesma. Foi assim que se formaram colônias penais, como certos países austrais o foram, quando criminosos incomodavam por demais as devidas metrópoles.

Mas foi também contra isso que o liberalismo se insurgiu, quando antepôs-se ao absolutismo do tal do Ancien Régime. E contra as liberdades individuais, como a de expressão, não há de fato como evitá-las; e, por mais que elas nos doam, têm de ser toleradas.

(Este texto não é mais que uma livre variação em torno de outro, O feudo da opinião, publicado em Ordem Livre.)

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Palatando © Adriano Correia