Defesa da Existência; do Ébrio de Nascença

Se não se pode ser sincero o tempo todo, porque isso causaria o desmanche social, parece que ser sincero quase o tempo todo também é perigoso. Fato é que por mais que possam achar que se fica analisando as pessoas, a decorrência desse diagnóstico é que se está sendo analisado. E isto, o tempo todo. Viver em sociedade implica viver sob o tribunal dos olhares, dos ouvidos e da maquinação alheia. Há um tribunal instaurado contra si, mas também contra todos nós — embora provavelmente não sirva de alento saber que é recíproco, quando a contraposição sempre será entre si mesmo e a massa.

A maior parte das pessoas provavelmente não se soltará (will not hang loose). E, por isso, a ebriedade alcoólica é tão comum. E, por isso, tantos jovens e velhos recorrem ao ópio, seja qual for a sua forma. O grande problema, nesse caso, está em que há uma artificialidade nessa atitude. Se o poeta (idiota ou não) dissera “enebriai-vos!”, cabe perguntar se ele falava desse artificialismo; outros nascem ébrios. Uns são pedantes: acham que são, quando não são; outros têm a arrogância da relatividade, por assim dizer. Esses sabem que nada são perante aquilo que realmente é, mas também sabem que são uma porcaria um pouco melhorzinha. Esses, irônicos, são os bons ébrios por natureza. E o mais importante aqui é não precisar de meios relativos para enebriar-se, quando a única saída é a aniquilação por e para a perfeição.

Além disso, como a única ebriedade que vale a pena é aquela com que se nasce, capaz do riso sério de si mesmo — e talvez (escracho) do mundo mesmo e também da falsa seriedade chamada moralismo —, a alienação fica para os idiotas. Não, não se trata da alienação em seu sentido mais fraco, como se a diz vulgarmente. Falo literalmente agora. Há certa ebriedade, que apela para os meios relativos; essa ebriedade visa o alhear-se, que no fim é como que um esvaziar-se ou um evitar-se, buscando a suspensão temporária de si mesmo. É provável que toda a filosofia francesa do século XX consista nisso. “Não sou eu mais quem falo, fala o discurso.”

E se não toda a filosofia francesa do século XX, então todo o caldo cultural marxista. Por mais que Marx ele mesmo tenha dito algumas coisas relevantes (e não falo da injustiça, nem de nada disso, mas do problema do ser da espécie, do qual ele trata tão bem), toda a sua filosofia atenta, não contra o indivíduo, mas contra o sujeito. Não é porque somos em outro(s) que nos dissolvemos em outro(s). E aqui está a chave. Por mais romântico que seja falar em uma só carne, não há dissolução de fato (embora talvez de direito). A hipóstase ainda está aqui, ó; pode-se até pegar nela, se se quiser. E não se trata de hipostasiar um sujeito que não existe, porque ao passo que ele se relaciona, ele (esse algo aí) está no mundo; e todo estar no mundo é existir.

Por fim, quem nasceu intragável, e talvez já estragado, jamais precisará de um trago sequer, nem de estragar-se um pitaquinho que seja, mesmo que este seja para afetar certa incorreção (para o bem ou para o mal).

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Palatando © Adriano Correia