Em algum momento percebemos que nem todas as discussões valem a pena, se é que há as que valem. Estranho é que saibamos que devemos eleger nossas batalhas e que ainda assim combatamos. Não é à toa que vemos certo escrivinhador recluso, sem sair mundo afora dando as suas opiniões a quem não quer ouvi-las. Um deles já tinha me dito que a coisa não é assim e que não se deve escrever para alcançar audiência, mas para saldar uma dívida interior.
Não se deve entrar em batalhas contra canalhas, se no meio da luta terá dó do adversário. A guerra não é para piedosos, se a qualquer vacilo menor o adversário pode esmagá-lo. Todo bote deve ser econômico e devastador, sem que haja espaço para qualquer dúvida. No meio tempo, porém, na paz, o melhor tom é ameno, tranqüilo, cheio de “acho” ou “penso”. Até Lincoln sabia que esse era o melhor tom para o convencimento, para que o leitor, a quem se dirigia, ficasse desarmado desde o princípio.
Castro mostrou, hipocritamente ou não, modéstia cristã ao renunciar dizendo que “toda a glória do mundo cabe em um grão de milho”. Há só uma espécie de humilhação que é frutífera, aquela que é confessionária. Há outra também útil, mas desta não depende o futuro de nossas almas. E esta não se diz precisamente humilhação, e sim modéstia ou humildade. É hipócrita, mas todo ser social assim o é. Ninguém diz a verdade o tempo todo e ninguém trata a todos, sem uma única exceção, da mesma maneira.
Sermos animais sociais significa que somos superficiais uns com os outros na maior parte do tempo, senão em todo o tempo. Ninguém diz tudo o que pensa a uma determinada pessoa, e se diz, logo perderá a sua “amizade”. Por mais honestos que os melhores amigos sejam, isso não significa que serão cristalinos. E quantos são os homens perfeitamente sinceros consigo mesmos o tempo todo, sem pausa?
Quantos não são os numerários, os padres, os monges, cuja virgindade se dá não pelo bom motivo de dedicar a vida a Deus, mas porque perceberam que não conseguem chegar perto das mulheres? Não importa o quanto sua timidez se converta paradoxalmente em verborragia apologética, afetando incorreção; ainda assim, são no fundo de seu ser hipócritas.
Há ainda muito que dizer. Tudo não pode ser dito tudo de uma vez já. O que importa, no momento, é saber que o que vale a pena é sanar a dívida que se tem de si para si.
Uma Réplica
É aquela velha história que já te chamei a atenção, Adriano. Muitas vezes quando se ousa apontar para uma estrela, os outros olham o dedo, e não a estrela. Vira uma disputa entre quem consegue deixar o dedo em riste, e aquilo para o que se aponta o dedo vai para as cucuias. Como diria o velho Kant, os meios acabam tomando conta dos fins, e como diria Felix Guattari, as intrigas regionais apenas servem para ocultar e não resolver os verdadeiros problemas
abração,