Para Madalena de Drama Queen


mme. Cotillard, aka chorona

 

Os seus compridos cabelos,
Que sobre as costas ondeiam,
São que os de Apolo mais belos;
Mas de loura cor não são.
Têm a cor da negra noite;
E com o branco do rosto
Fazem, Marília, um composto
Da mais formosa união.


(Tomaz Antonio Gonzaga)


“Não quero mais ouvir a sua voz” é uma mentira patente — e é preciso sim quebrar o silêncio. Um verme corrói-me desde quando morto. E quando a morte sobrevém só resta o silêncio. O segredo mantido em silêncio até agora é que há vida ainda. Não fui cordial de todo, brasil mantive-me, embora parte do combustível pudeste dizer às amigas, “ele mo deu”. Mas esta carne batente, ainda que despedaçada, parte n’aquém Pireneus, cá está. “Segura”, poderia dizer-te. Então sentiria a vida que sobreviveu à descoberta impossível.

Descoberta, talvez seja uma boa palavra. Talvez o pudor fizesse sentido retroativamente. Descoberta, conheci-te; descobertos, conhecemo-nos. Mas, Madalena, filha da puta, não queira afetar-se, fingindo que as feridas carrega-as só. Quero dizer que disputo isto! Se te calaste e adiante nos traíste, mesmo que tudo já tivesse acabado, então disputo.

A verdade, e toda ela, é que não enfrentei o fato; adiei nesta, naquela. E disseste já ter me odiado, embora saibamos que ainda me odeia, maldita. E tempo demais já passou; e, idiotas, éramos tão jovens. Confuso. Não previ aquilo. Ora agora prevejo seu ajuntamento, ora o fim com aquele que usaste para calar tuas dores; das dores, Madalena.

Cômico, até vexaminoso, é que és auto-intitulada, Madalena; não me lembro de ter-lhe dito pu-ta; não depois do “não quero mais ouvir a sua voz”. Parecia de fato, tens razão, uma estória ultra-romântica, do pior “kitsch” — melodramáticos os atores, e não só um deles, como fizeste crer.

Catárticos, há que compreendê-los; há até música catártica, que não deveria chamar-se post rock. Vi-nos dia desses. No começo pensei que era a ti que via. O desequilíbrio emocional de Cotillard obrigou-me a ver La vie en rose, para entender todo o hype. Vi-te, pardal; vi-te, trigueira. Vi la vie de merde. Lembrei-me da mãe, do pai. Às vezes é difícil não te amar.

Seria tão bom ouvir-te dizer que tudo que sentes por mim é “rien de rien”. Uma canção que canta a alma, o amor; l’âme, l’amour. Dizias, como a velha louca, de nada te arrepender.

Vejo, orgiásticos, os pares mais próximos na faculdade. Tudo que sempre odiei; tudo que sempre desprezei. Meu melhor amigo, so far (so close), mudou. Parecia um nipo sóbrio (embora já não fosse); hoje é o maluco mais racional que conheço, o que me faz pensar que talvez Chesterton, mesmo entediante como é, possa estar certo. O racionalismo exacerbadíssimo está próximo da loucura, e até faz história dela.

Todos eles são putas. E creio que não se ofendariam em ouvir-me dizê-lo. Não são você. Nem se ofendem tão facilmente, o que é, para mim, incrível, embora também assustador.

Sou também pardal, mesmo porque pardais são, ainda que pássaros, medíocres; passamos um pouco da média; ainda mais tu, ébria que era. A ébria mais inteligente que conheci e também a mais densa; e tenho certeza de que ainda agora não te idealizo, ébria tonta. Temos raiva um do outro e provavelmente sempre teremos, liberal (no pior sentido) que és, conservador que sou.

Pardal porque não há vida para mim sem canto. Não sem um sonho impossível, não sem um chamado, não sem o quixotismo do love pure and chaste from afar, que tu, profana, nunca entenderás; só me resta ser o bobo, scorned and covered with scars; disputei e enfim ganhei — para variar (dito seguido de um enorme ataque de tosse).

Esta carta, cifrada, como tudo que escrevo, intitular-se-ia True Love Waits. A referência é óbvia. A conclusão também: precisava saber se esperarias de fato, mandei-te calar, e me deste a resposta em meados daquele mês a que te referiste. E não é por outro motivo que assinarás diante de mim — até o leito, desta feita de morte —, Madalena.

Mas de ti para mim, já ouvi; canto eu agora de mim para ti. Não, não me arrependo de nada e — aujourd’hui, ça commence avec toi.

Replicar

O seu email nunca será publicado nem compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados*

*
*
Palatando © Adriano Correia