Qual Morte é o Sentido de Certa Vida?

Se houvesse uma definição para o dia de hoje, diria que é a de dia de nuvens. Quando o céu não está tão claro, não se pode antever o futuro. Não vivemos a tempestade já, mas poderemos vivê-la em breve; é que as nuvens tanto podem aglutinar-se para o derradeiro temporal ou simplesmente dissipar-se. A medicina grega poderia vir em socorro, fornecendo um termo bastante preciso para definir a situação: crise.

A pergunta costumeira então vem a agarrar-nos o pé: e quando, na história da humanidade, não vivemos um tempo de crise? Nunca há novidade debaixo do sol, diria alguém mais sábio, de mais de dois milênios e meio de idade. Mas, no sentido original hipocrático, que era uma crise? Provavelmente um estado de tensão entre uma díade de opostos que exige a supremacia de um dos lados. É necessária a (dis)solução, já que a tensão jamais é eterna.

Ou o tempo (”agora”) é essa tensa (”ântero-posterior”) expressão da eternidade? Ou, de outra forma, é o tempo a crise permanente? E, se permanente, até quando? Haverá então o final dos tempos?

Não é de se estranhar que a maior parte das pessoas passe por cima das crises. Tratam-na com anestésicos os mais vários. Mas a suspensão temporária da sensação não dá cabo do problema, apenas o procrastina. E que é que nunca deixamos para depois, a não ser a própria procrastinação? Viver mesmo não é de certa maneira procrastinar a morte?

É preciso dizer com toda a força, reativamente mesmo, que a fraqueza não deve mesmo ter vez e que é preciso ir à guerra. Há que finalmente se reconhecer que certo oráculo estava certo. A questão não é “por que viver”, mas “pelo que morrer”. E não falamos aqui da ebriedade terrorista ora dita islâmica. Falamos da clássica kalos thanatos, porque há uma bela morte e há causas por que morrer.

Não se deve pensar que o termo “guerra” é específico. Não o é. Não se refere aqui a uma técnica específica. A vida, uma crise, é também uma guerra. Não a guerra pela simples sobrevivência, como se se tratasse apenas do alimento fisiológico, direcionado à auto-conservação. A guerra é o meio para a bela morte, já que a morte mesma terá de vencer, mesmo que pirronicamente. E aqui é o ponto que nos interessa: é preciso viver de maneira que a vitória de Tanatos seja pirrônica. E como disse um sábio, embora não o mais genial, só Um venceu a morte, só Um voltou do vale da sombra da morte e decretou vitória ali.

A vida então é para ser vivida com amor, para que na morte se a ganhe; ou sem, para que na morte se a perca. Daí que a questão decisiva seja o ideal, que é o que nos guia e dá sentido à jornada (don’t think of Star Trek, you dumbass). Ideal que não é senão aquilo por que morrer.

Uma Réplica

  1. Evandro
    Publicado em 8 de abril de 2008 às 12h47 | Referência Permanente

    Parabéns pelo trabalho. Você tem textos muito bons.
    Pode ter certeza que passei um bom tempinho lendo alguns aqui… todos muito interessantes, bastante críticos e pensativos.

    Muito bom Adriano.

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Palatando © Adriano Correia