Que Fazer do Bem que Ainda Resta?

O mal não é invencível, mas existirá até o fim dos tempos. Existirá, mas não no sentido pleno da palavra. O mal não tem força por si, já que se trata de uma mera deturpação do bem; é como se esse mesmo bem tivesse vários graus de intensidade, e quando prestes a se extinguir tornava-se então “mal”. Porém ainda assim o mal não tem existência própria. Embora o bem infinitesimal, raro mesmo, passe a se chamar mal, ainda assim não tem força própria.

A recíproca não é verdadeira: o bem não depende do mal para existir. Se não houvesse graus de bem, e portanto não houvesse mal, existiria tão e só o bem absoluto. O bem é apenas um dos modos de se dizer o ser.

A existência na face da terra contudo não pode contar com a idéia de que possa haver a extinção do mal antes do fim da história, de nossas estórias. Que a vida seja uma estória contada por um idiota, cheio(a) de som e fúria, nada significando; disso não implica que não haja o bem absoluto. E nenhuma tragédia pode ser dita cheia de sentido, se o destino ou o fim contra os quais lutamos ainda não são sabidos vencedores.

Édipo fugiu de seu destino, embora fazendo escolhas livres, para dar-se de encontro com ele. Aprendemos assim que não adianta lutar contra o destino, ele é mal mesmo e assim será; reformá-lo é pretensão gnóstica típica de teomaníacos, que acham que sabem tudo e que podem reformar o mundo, como se fosse possível; por isso é patético o fim trágico do revolucionário ou do reformador social. Édipo arrancou os olhos, mas tarde; não se escapa do que já se viu ou do que já se sabe.

Talvez a grande sacada seja antecipar a vitória do mal na história. Porque a sua vitória do ponto de vista da eternidade é uma derrota sem sentido; o mal nada mais é e nada menos sempre foi do que a pulsão de morte do bem; só que não há vida sem um bem mínimo; pior, nada há. O sujeito moderno, também dito sujeito transcendental, está morto porque visa ao nada, visa à destruição; ou, dito de outro modo, porque é mau. Só que, passo contínuo, ele é minimamente bom. Então talvez seja um morto-vivo.

2 Réplicas

  1. Publicado em 10 de março de 2008 às 18h15 | Referência Permanente

    reparastes que, se trocares os sentidos [bem por mal , bom por mau e vice-versa], continuarás com o mesmo tipo de argumento, err, teísta?

  2. Publicado em 11 de março de 2008 às 22h53 | Referência Permanente

    Gostei da objeção, Gabiru. Mas eu também poderia dizer que não importa que você chame bem de mal ou mal de bem; nem o bom de mau, nem o mau de bom; os nomes não alteram a realidade de fato, são meramente convencionais.

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