Sem medo de repetir-me, digo que dizer tudo o tempo todo é impossível. O mar de som e fúria conseqüente nos afogaria. Ao mesmo tempo é ponto pacífico que almejamos à felicidade. Queremos uma boa vida. O preço desta é que calemos muito e que mantenhamos constantemente um silêncio respeitoso. O contrário disso seria como arrotar à mesa do almoço de domingo: por mais que expiar certos ares seja uma tendência natural e necessária, é inoportuno que o façamos de público, isso embora haja certo culto à irreverência que apoiaria essa afetação.
É preciso aceitar que os simulacros existem. Prezadas são as aparências, em qualquer lugar, em qualquer momento. A face por si já é uma máscara; e até dar-se a conhecer como pessoa, mesmo que para si mesmo, é saber aparências. Não há como fugir do princípio de que só nos conhecemos como pessoas enquanto uma aparência que se dobra aos nossos próprios olhos. O “eu” mais fundo só pode ser conhecido por outro, por algum outro que não esteja encarnado nas aparências; um tal que não nos apareça, embora pareça oculto e muitas vezes postulado como indeterminado ou inexistente. E como nós, que nem podemos conhecer perfeitamente a nós mesmos, poderíamos conhecer-lhe mais que aparentemente? Como nós, que vivemos na dúvida, poderíamos não duvidar até desse outro?
Mesmo que o que valha sejam as intenções, elas, em si mesmas, são-nos incognoscíveis. Nosso conhecimento delas é imperfeito e só temos acesso lógico a sua existência em decorrência dos simulacros de intenções, muitas vezes falsificados. A refração do ser nas categorias, nesse sentido, não é mais que a sua decadência; e o ser em si jamais tocamos. E o ser em si é primeiro na ordem das causas, embora na ordem do conhecimento seja o último e apareça como um restinho, quase esgotado, de suporte do simulacro.
Tudo que nos resta é, como Sísifo, esperar que da próxima agarraremos o topo, segurando-o. Mas claro está que se trata de uma esperança em falso. A árvore do conhecimento nos despiu de todo, deixando-nos um único restinho de algo, a esperança; mais importante que elas nos é a árvore da vida, da qual fomos impedidos de comer. Foi assim que nossa húbris foi punida, isto é, como um castigo histórico, como o castigo de estar no tempo ao passo que nos corrompemos e morremos. Resta-nos apenas um acordo com o representante (ator) do autor. Servos seus, para que simulacros sejamos sustentados pelo único que está verdadeiramente de pé.
Uma Réplica
Post dos melhores. Adorei o seu texto.
(chato entrar aqui só para fazer comentários à toa, mas enfim..)
abrçs!